Super Ana contra a Violência Obstétrica

 Eu entrei na faculdade de Ciências Sociais achando que me prepararia para trabalhar na ONU, ser capacete azul na Bósnia. Obviamente, não fazia ideia do que fazia um cientista social.😉

 Um ano depois, resolvi prestar vestibular para Direito querendo “ver-as-coisas-acontecerem”. Sonhava com um misto de Mississipi em Chamas e Erin Brockovich, algo tipo “consciência social com borogodó”. Descobrir que o dia a dia da advocacia era mais dinheiro que direito foi um pouco frustrante, mas amo o que faço.

Hoje, entretanto, a minha síndrome de heroína está plenamente satisfeita. Sou a própria Mulher Maravilha. Não salvei ninguém da enchente, não tirei nenhum gatinho da árvore, não usei minha visão de Raio Infravermelho para desintegrar nenhum mensaleiro. Só fiz o meu trabalho. Com orgulho, muito orgulho.

 Conheci, em agosto, uma moça muito especial. Seu nome é Ana Paula Garcia.

Ana entrou em trabalho de parto com 34 semanas de gestação. Queria um parto natural. Ela havia estudado, frequentado um grupo de apoio a gestantes, feito pré-natal com um médico humanizado. Nada disso a protegeu de um atendimento extremamente violento em uma maternidade particular em Belo Horizonte.

 Ela foi anestesiada contra a sua vontade, pois “não era índia para aguentar um parto sem tomar nada”. Quando pediu para dizerem o que estavam fazendo com ela – afinal, aquele corpo tinha dono! – ouviu ironias. Foi manipulada como se fosse uma coisa. Tratada com desrespeito e frieza, no momento mais importante da sua vida: o nascimento do seu bebê.

Ela poderia ter se afundado no travesseiro, morrido de pena de si mesma, ou deixado para lá, como fazem tantas de nós, mas lembrou que vai ter outros filhos, que outras mulheres serão atendidas naquele mesmo plantão, que sua vizinha está grávida, que sua prima quer ficar. Pensou naquela mulher ali, do outro lado da rua e na outra, na fila do supermercado com o maior barrigão. Pensou nas amigas, nas filhas e nas netas das amigas. E viu que isso não podia continuar assim.

 Eu sou advogada da Ana. E ontem, juntas, fomos ao CRM, entregar, nas mãos do seu presidente, uma representação contra os médicos que a atenderam.

 O que está escrito lá é que não admitiremos mais violência obstétrica. Que o atendimento nos plantões tem que mudar, que as mulheres têm o direito de decidir sobre o seu corpo e devem ser incluídas nas decisões sobre a saúde e o bem estar das suas famílias e seus filhos. A medicina é uma profissão muito linda. Quem a usa como instrumento de poder não merece o título de médico.

 Ana, obrigada por deixar eu ser seu Robin, seu Watson, seu Sancho Pança…

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37 respostas a Super Ana contra a Violência Obstétrica

  1. Katia Gutierrez diz:

    estou emocionada aqui e orgulhosa por ser amiga desta dupla tão especial!

  2. Polly diz:

    Parabéns, queridas!!🙂 Orgulho de vcs!!

  3. Que bacana! Você é poderosa mesmo! Parabéns!

  4. Malisa diz:

    Queridona, por isso me orgulho de ter você no meu ciclo de amizades. Isso não é apenas um idealismo e sim justiça! Médicos e advogados, não seu caso, claro, aproveitam da fragilidade destes momentos para si enaltecerem e se sentirem “ensimesmados”. Se cada um fizer um pouquinho acho que a luz no fim do túnel se abrirá a cada dia. Parabéns à dupla dinâmica!

  5. Ana Paula Garcia diz:

    Eu é que te agradeço, Gabi! Ontem foi muito especial mesmo, mais um passo (não é o primeiro nem o último). Quero te dizer que até agora estou fantasticamente agradecida por sua presença em minha vida. Obrigada querida, nunca vou me cansar de te agradecer. João é abençoado pela mãe que tem!

  6. Carol Flor diz:

    Torcendo para vcs conseguirem mudar o mundo mais um pouco!!!

  7. hahaha, e eu fui ate o fim com o curso de ciencias sociais! queria era ser jornalista na epoca, mas achei que o curso valeu a pena em termos de formação humano/politica…hoje escrevo no blog…to meio jornalista! hahahhahaa…fazendo as vezes de botar a boca no trombone sobre vilencia obstetrica e outros assuntos como propaganda infantil, racismo…passei por aqui porque vi o começo do texto, vi que tinha entrado de gaiato em cs e fiquei curiosa de ler o resto da historia! que bom que encontrou sentido em ser advogada! temos muito que encontrar sentido em valor naqueilo que fazemos! bj

  8. Luciana diz:

    Confesso que cheguei ao fim com os olhos cheios d’agua. Ana merece muito! e sorte dela ter alguem que tambem luta pelos mesmos ideais! nao podia ter melhor resultado, ne? parabens!

  9. Giu diz:

    Não sou mãe, e mesmo assim tive que segurar as lágrimas. Pensei em minha irmã. Obrigada Gabi, pois essa luta não é só da Ana e sua. É de todas nós mulheres que já foram mãe ou que ainda vão ser, como eu. Eu agradeço por vc estar em minha vida. Parabéns a vcs.

  10. Ric Jones diz:

    Parabéns, minha flor… Você está dignificando o diploma que recebeu. Um beijo…

    • gabisallit diz:

      Ric, na verdade, o diploma está me dando a chance de dignificar a pessoa que sou. É lindo usar nossas aptidões para defender nossas causas, né!
      Você que o diga!!!
      Acabei, recentemente, de ler “Memórias de um Homem de Vidro” e fiquei fascinada. Se eu achasse que preciso de médico (ah!!!), queria você!😉
      Bjs e obrigada pela visita!!!

  11. Bárbara diz:

    Parabéns pras duas, que não deixaram um absurdo desse sair barato. Precisamos de mais gente com coragem pra botar a boca no trombone e denunciar os abusos.
    E qual é a maternidade? Moro tb em BH, e quero passar longe dela, quando for minha vez. (se não quiser colocar aqui, me manda por email?)
    um abraço, e meu desejo de força e paciência pra vcs.

    • Polly diz:

      Oi Bárbara, infelizmente esse tipo de atendimento é rotina na grande maioria das maternidades do país (principalmente as particulares). Para parir com dignidade, segurança e paz nesse Brasil é necessário se informar muito e construir um bom plano de parto. Venha participar do grupo http://br.groups.yahoo.com/group/partoativobh/ e dos encontros do Ishtar (http://ishtarbh.blogspot.com.br/). Assim quando chegar sua vez, você já estará mais preparada para entender como funciona o sistema e consequentemente como dribla-lo. Mais sobre violência obstétrica:
      * Programa da Rede Minas, apresentado por Roberta Zampetti, sobre violência no parto, ao vivo – 31/07/2012 20h:
      Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=wj7EZGGAuvE
      Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=Sa8v400-jj4
      * vídeodocumentario “VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA – A VOZ DAS BRASILEIRAS”: http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/violencia-obstetrica-voz-das_25.html
      Bjos,
      Polly

      • Bárbara diz:

        obrigada pela resposta, meninas.
        Já li muito a respeito do tema (já tinha visto a pesquisa e o programa, p.ex), li nem sei quantos relatos de parto, já procurei me informar sobre médicos (nem sei se o plural se aplica mto aqui…) humanizados em BH, e já sabia até da existência do Ishtar. (hahaha sou meio louca, né? nem grávida estou!)
        Mas agora estou sentindo necessidade é de me engajar mais na luta, sair do sofá e me indignar nas ruas.
        Não consegui me cadastrar no grupo, nem clicando no “entrar com conta do gmail” (ou algo assim). Alguma sugestão?
        E como fico sabendo onde e quando são os encontros?
        bjs

    • gabisallit diz:

      Bárbara, como a Polly disse, o ideal é se informar, fazer plano de parto, frequentar os grupos de apoio e, principalmente, passar longe dos plantões. O que aconteceu com a Ana poderia ser relatado em qualquer das maternidades privadas de BH, infelizmente😦

      • Polly diz:

        Que chique, Bárbara!! É isso aí!!! A gente devia ter contato com essas coisas desde a escola.. era pra ser natural… Vou te ajudar a entrar no grupo em PVT, ok? Bjos.

  12. FeHe diz:

    Como sou feliz em ter uma amiga assim.!!!! Bjos

  13. Luísa diz:

    Acabei de ver o vídeo sobre a violência doméstica e fiquei completamente emocionada com o depoimento da Ana Paula. Me emociona sobretudo a coragem e a força ao revelar sua história e correr atrás de mudá-la. Hoje entendo que todo e qualquer gesto contra tamanha barbaridade é importante e necessário. De coração, muita força e admiração às duas, com certeza este passo é de grande colaboração para todas as mulheres!

    Estou grávida de 8 meses e sou de Belo Horizonte, naturalmente me senti insegura ao saber que Ana se preparou para o parto, que infelizmente não ocorreu da maneira como programado. Sei que é bastante delicado, mas gostaria de saber a maternidade onde foi o ocorrido. Neste momento nos sentimos muito vulneráveis, e como posso perceber, todo cuidado ainda é pouco.
    Se puderem me dizer, em muito ficaria mais tranquila!🙂

    Um grande beijo às duas e espero que esta luta, que é de todas nós, nos renda boas notícias!

  14. Pingback: Recomendações da ANS para o parto – e orgulho, orgulho, orgulho | Dadadá

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